Mixagem: mundo encantado, ou trem fantasma?

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Mixagem: mundo encantado, ou trem fantasma?

“Mixagem a gente desiste, não termina”, é o sábio mote que me ensina o sábio Paulinho do Eco Som, no alto dos seus mais de 30 anos de experiência. E olha que esse ditado é do tempo da mixagem analógica, sem recall nem presets…

De todas as fases do processo de produção musical, a mixagem é a mais perigosa de se transformar em um pântano e sugar sua energia até o fim sem lhe mostrar uma luz no fim do túnel. Plug-ins, processamentos mirabolantes, efeitos que nos fazem perder um tempo imenso para depois serem descartados no dia seguinte em apenas uma audição, batalhas de egos dentro do estúdio, tudo isso e muito mais conspirará sempre para que a máxima do meu amigo se comprove, pode acreditar, leitor.

Para começar, dois pontos tão fundamentais quanto esquecidos: uma gravação bem planejada levará a performances de qualidade e a decisões focadas num objetivo claro. Assim, quando abrir a sua sessão, você não terá 87 opções de solo de guitarra para escolher, ou a captação do baixo em cinco canais diferentes com microfones, D.Is, amplificadores reais e virtuais.

Sem querer destruir o espírito de experimentação que existe em cada músico, e que em si é uma coisa altamente positiva, mixar é tomar decisões: elas começam no processo de gravação e vão até a escolha da capa do disco, ou sincronização da trilha ao vídeo, ou postagem em algum site de difusão pela web.

Como em qualquer decisão tomada na vida, existem as que são mais fáceis e as que tendem a nos colocar em sinucas do tipo “se-correr-o-bicho-pega-se-ficar-o-bicho-come”. Disso, ninguém escapa, leitor! Por isso, procure identificar as decisões que lhe são mais fáceis de tomar: o melhor take, o método de captação que chega mais perto do som que você tem na cabeça, ou deixar que aquele “happy accident” que sempre acontece, seja incorporado ao arranjo mesmo (e por isso mesmo) que você não o tenha previsto.

Mais uma vez, lembro que ser organizado não é ser quadrado, muito menos burro! Quem é criativo e organizado estará sempre aumentando os limites do seu talento, ao mesmo tempo em que quem é criativo e “deixa rolar” poderá estar perdendo muitas boas ideias ao longo de um caminho sem organização.

O equilíbrio entre a intuição e o método é fundamental em todas as partes do processo, até porque quem se vangloria de ser “criativo” no sentido de não dar a mínima para a organização, uma hora vai precisar de alguém que faça esse “trabalho sujo”. Coisas como lembrar qual das tracks nomeadas como “áudio track” é na verdade o melhor take da voz do cantor, ou do solo instrumental, é sempre muito mais importante para o resultado final do produto do que aquele processamento no baixo que consumiu as últimas duas horas de estúdio.

No Japão, onde a organização atinge os limites da loucura (exceto na construção de usinas atômicas, ao que parece), já perdi muitos neurônios vendo engenheiros de gravação editarem performances em bases que obviamente não eram as definitivas das músicas. Esse, o extremo que não vale a pena de jeito algum.

Não estou advogando sessões mediúnicas, nem que você trabalhe de olho no relógio como um funcionário de repartição pública, mas sim que aproveite o seu tempo, e dos outros que estão trabalhando com você, da maneira mais racional possível. Se quiser tirar uma noite para experimentação, avise aos amigos, compre aquela cervejinha se for o caso, e divirta-se, mas não faça os outros perderem tempo com ares de “gênio em movimento”.

Essa era a primeira coisa importante e meio esquecida em uma mixagem: estabelecer objetivos e tomar decisões. E a outra? Claro que não esqueci, leitor, mas você já sabe: na masterização a gente não resolve!

Fernando Moura é pianista, compositor, arranjador e produtor de música e trilhas sonoras com mais de 30 anos de experiência no mercado. Saiba mais em www.myspace.com/fernandomoura.

 

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2011-05-09T21:49:49+00:00 maio 9th, 2011|Categories: colunas, Sonhos de um Produtor|Tags: , , |

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