Fix in the mix: possibilidade ou lenda?

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Fix in the mix: possibilidade ou lenda?


No tempo das gravações analógicas, e com músicos tocando ao vivo simultaneamente (quero dizer, no milênio passado), uma das minhas maiores satisfações era quando o técnico levava ao zero todos os faders da mesa com os dois braços depois do último overdub e começava a preparação para a mixagem. Sempre achei incrível como o assistente conseguia lembrar de todos os efeitos pedidos pelo engenheiro com o endereçamento correto de canais e vias. É verdade que na maioria das vezes pintava aquela pergunta: “onde você ligou a volta do reverb? No canal 25, ou no 27?”

Nos anos 80, a chegada do Rev7 da Yamaha, com toda a sua banca de reverb digital, fez com que durante algum tempo pessoas abandonassem os ecos de mola e analógicos, muitas vezes de incrível qualidade (EMT, Lexicon e outros), em troca da “modernidade” fria e metálica da “novidade” digital. Nessa época, o padrão era gravar tudo em 23 pistas, porque na pista 24 tinha que ser gravado o SMPTE, sinal de áudio que era transformado em time code e sincronizava mais de uma máquina de gravação, ou os teclados que tivessem sido programados em um sequencer dedicado (sim leitor, já houve um tempo em que computador só servia para passar emails!), sincronizados por MIDI com baterias eletrônicas Linn ou Oberheim. E por aí a vida seguia com muitas dores de cabeça e dúvidas quanto ao timing dos instrumentos e estabilidade geral dos sistemas de gravação da época.

“Na mixagem, a gente dá um jeito nisso” era um mote muito repetido, e tradução do título desse artigo adaptada à realidade brasileira da era de ouro da MPB e do rock nacional. A distância tecnológica que nos separava dos USA e Europa era muito maior do que a atual e os cuidados na hora de gravar eram bem menores do que o recomendável. A tecnologia predominante na época era nitidamente de transição entre o analógico dos anos 70 e a informatização “sem miséria” que começou no meio da década de 90. O MIDI tinha sido lançado em 82 e havia um “senso comum” de que o digital seria “muito melhor” “porque não tinha ruído”.

Essa lembrança certamente espantará meus leitores mais jovens, mas acenderá um sorriso de complacência naqueles que, como eu, ficavam muito frustrados em ter que tentar controlar o ruído indesejável limpando com álcool e cotonete cabeças de máquinas de 2 polegadas por causa de óxidos soltos por fitas de qualidade duvidosa e armazenadas em condições longe das ideais no calor do Rio de Janeiro. Hoje, quando ouço alguém falar que fez questão de incorporar ruído à gravação “para ficar mais autêntico”, não deixo de ver nisso esnobismo e um pouco de ignorância, até porque ruído e distorção no mundo digital são coisas bem diferentes do que ouvimos nas gravações feitas em “fita magnética”.

Atualmente, a maioria parece preferir a mixagem “in the box”, na qual tudo acontece dentro do DAW de sua preferência, usando aquele monte de plug-ins que eventualmente oferecem a satisfação instantânea tão afinada com o momento “mais do mesmo” que vivemos na música e na vida com um bombardeio de opções na mesma linha “mais do mesmo” com resultados semelhantes e que se afinam perfeitamente com os restaurantes de comida a quilo, shopping centers, franquias de sorvete de iogurte e as levadas de CDs de loopings pré-produzidos.

Dizer que o som das mixagens “in the box” é menor, mais pobre, ou pior do que uma mixagem usando mesas e efeitos analógicos é tão impreciso quanto esnobe: não há rigor algum em comparar um Jaguar com um Gol 1.0! Tudo dependerá da situação, orçamento, estética musical e uso da música.

Por outro lado, usar equipamento caro e de nome para mixar não assegura um bom resultado sonoro. E tenha certeza de que ninguém vai comprar ou deixar de comprar sua música porque ela foi mixada em uma SSL, ou dentro de um PC rodando uma versão demo do Sonar. O que está em jogo, e sempre estará, é a sua criatividade, a sua capacidade de fazer com que as pessoas se identifiquem de alguma maneira com sua música e o quanto você foi capaz de usar o equipamento que tem para chegar a esse fim. Existem páginas e páginas de Web, livros, cursos e uma infinidade de receitas de bolo para “mixar da melhor maneira sua música e transformá-la num hit”, e eu não sou contra nenhuma delas.

Entretanto, o importante a ter em mente é que a qualidade artística, a originalidade das ideias musicais e a emoção gravada são, e sempre serão, seus maiores trunfos para uma boa mixagem. Afinal, como dizem os mesmos americanos que criaram a lenda que dá título a essa coluna: you can´t polish turd, em que o significado de “turd” vale uma busca no Google Translator, pois não seria elegante escrever a tradução exata aqui nessa coluna.

Fernando Moura é pianista, compositor, arranjador e produtor de música e trilhas sonoras com mais de 30 anos de experiência no mercado. Saiba mais em www.myspace.com/fernandomoura.

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2011-05-01T22:24:28+00:00 maio 1st, 2011|Categories: colunas, Sonhos de um Produtor|Tags: , , |

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