É possível se proteger das intempéries nos ‘frilas’ da música?

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É possível se proteger das intempéries nos ‘frilas’ da música?

Confiança, ou contrato?

“Negócio só presta quando é bom para as duas partes”, já dizia meu avô do alto de sua experiência de comerciante europeu que veio para o Brasil entre as duas guerras mundiais. Mesmo sem falar uma palavra de português, levou uma vida digna até 92 anos.

“Confiança é tudo”, é o que me dizem no Japão depois de 13 anos trabalhando com artistas locais sem nunca ter passado um centavo do orçamento previsto. Mesmo assim, a cada novo trabalho que faço com eles, repete-se um ritual de envio de orçamentos e minutas com cópias em fax que têm que ser conferidas, assinadas, rubricadas e checadas muitas vezes por diferentes pessoas até passarem a ser os contratos propriamente ditos. Nunca, nesse tempo todo de trabalho, houve alguma quebra das condições estipuladas por parte deles como contratantes e todas as alterações foram sempre favoráveis a mim como acréscimo de shows durante uma temporada, ou gravações adicionais com outros artistas que não estavam previstos no período inicialmente contratado.

“Num pega nada não”, me diz o produtor que quer que eu copie a referência de música que está editada em seu vídeo com sinceridade de camelô do Largo do Machado diante da cópia pirata mais ordinária do filme que está sendo exibido no cinema da mesma calçada.

No mundo dos trabalhos freelancer, muitas vezes a urgência e as circunstâncias em que você é chamado para participar não permitem negociações muito cuidadosas em relação a preços e condições. Em muitas dessas situações, não há tempo para confecções de minutas de contratos para serem discutidas por advogados qualificados e negociadas item a item.

Infelizmente, como o meu leitor deve suspeitar, as condições e o tempo hábil para esse tipo de negociação praticamente não existem no mundo real dos frilas. Assim sendo, a toda hora você se vê diante daquele dilema: “será que dá pra confiar nesse sujeito que me ligou em um sábado à tarde propondo um trabalho que tem que ser entregue na segunda-feira pela manhã, e vai ser pago em ‘uns dez dias depois da aprovação’”?

A coisa mais importante nessa decisão é não deixar que sua vontade em fazer o trabalho seja pelo dinheiro, por quem está propondo, ou pela possível visibilidade que você sonha que essa oportunidade vai lhe dar. Decida por você sem uma mínima análise de riscos.

Você conhece a pessoa que está lhe procurando? Quem deu a ele seu telefone ou e-mail? Essa pessoa já trabalhou com ele? Foi tudo certo? Há quanto tempo? Quem mais está envolvido nesse trabalho? Alguém que você já tenha trabalhado antes? Seria possível um encontro pessoal antes de fechar realmente o trabalho? Essas perguntas ajudam, mas não eliminam totalmente o risco de um “banho”, ou desistência súbita sem maior explicação, um sumiço sem pistas, nem respostas a e-mails depois que você entregou o que havia sido encomendado.

Estipular condições como pagamento 50% adiantado, pagamento contra entrega, assinatura de promissória, ou qualquer documento de valor legal que comprove que você fez o trabalho, e que faz jus ao pagamento combinado, é o ideal e indispensável em casos de trabalhos de maior responsabilidade e duração. Infelizmente, para os frequentes casos de “pega ratão”, “apagamento de incêndio em fim de semana”, ou “roubadinhas brasileiras”, dificilmente você vai conseguir porque provavelmente o proponente, mesmo com a corda no pescoço, é do tipo: “complicou, não quero mais”.

Outro detalhe que tem que ser levado em conta: resolver um problema complicado de trabalho de um cliente que você não conhece não lhe garante em hipótese alguma continuidade de trabalho com esse cliente.

Na prática, em muitos casos, isso funciona perversamente ao contrário: o cara pode achar que você aceitou aquelas condições absurdas porque estava com a corda no pescoço, ou chutando lata, e que seu trabalho não é mesmo grande coisa. Pode parecer incrível, mas há casos em que uma recusa bem educada e bem fundamentada pode funcionar como um atrativo, tipo fruto proibido para futuras chamadas.

Solução? Infelizmente, o free lancer tem que encarar esses riscos, são característicos da maneira que ele escolheu para se relacionar com o mercado de trabalho. O que se pode evitar é o desgaste emocional e a expectativa excessiva em relação a uma situação profissional que, como todas as outras, depois de resolvida sempre leva quem participou a se perguntar: “como é que eu não pensei nisso antes?”

Fernando Moura é pianista, compositor, arranjador e produtor de música e trilhas sonoras com mais de 30 anos de experiência no mercado. Saiba mais em www.myspace.com/fernandomoura.

 

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2011-05-25T21:59:31+00:00 maio 25th, 2011|Categories: Sonhos de um Produtor|

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2 Comments

  1. Cristiano Moura maio 26, 2011 at 6:43 am - Reply

    Fala Fernando,

    Sou muito fã dos seus artigos! Este é mais um sensacional! Estou sempre de olho nos seus artigos via RSS FEED, mas nunca venho fazer uma visita para deixar comentários 🙂

    Abraços

  2. Patricia Valino julho 15, 2011 at 10:21 am - Reply

    Poxa, olha só que coisa. Sou Designer, nada haver com produção musical. Caí nessa página totalmente de paraquedas. Mas, seu artigo foi excelente! Acho que isso que você falou acontece com todo profissional freelancer, e a maturidade com que você tratou o tema foi ímpar. Fica de lição pra mim, e com certeza vou repassar sempre que conversar a respeito. Muito obrigada por este artigo!

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