Sua excelência, o briefing

///Sua excelência, o briefing

Sua excelência, o briefing

Afinal, de onde vem essa palavra? Em inglês, briefing quer dizer “instruções” e, na definição da onipresente (mas nem sempre confiável) Wikipedia, trata-se de um “conjunto de informações, uma coleta de dados passadas em uma reunião para o desenvolvimento de um trabalho”.

No milênio passado, a maioria dessas reuniões acontecia em agências de publicidade com o nome de brainstorm, onde todos, inclusive a moça do cafezinho, davam sugestões pertinentes (algumas vezes nem tanto assim) ao trabalho que estava sendo discutido naquele momento. Tive a sorte de trabalhar com alguns publicitários brilhantes, como Mauro Mattos, Mauro Costa Santos e Lula Vieira, que gostavam de música profundamente e tinham cultura musical para saber a diferença entre uma trompa e um trombone, entre Lester Young e John Coltrane e entre John Williams e John Barry.

Vivíamos os anos 80 e o culto à “referência” ainda não tinha sido disseminado, as demos eram feitas em gravadores cassetes de quatro canais com sequencers dedicados como o QX5, da Yamaha. Isso distanciava bastante a demo do resultado final gravado em estúdios profissionais por músicos idem, tocando ao vivo sem as possibilidades de edição que temos hoje em dia.

Sem saudosismo, nem comparações, cada época tem suas características! Ao final das reuniões, me lembro que saía com uma ideia consistente e colocada em palavras depois de discutida com os profissionais envolvidos na execução do projeto: criadores, produtores, diretores, produtores musicais e muitas vezes até o próprio cliente. Em cima dessa ideia, o briefing, mesmo que não fosse uniforme e comportasse variações é que o trabalho se movimentaria. A partir de quanto essa direção se mostrasse adequada, é que a música seria aprovada, ou modificações seriam solicitadas.

Ao contrário de hoje em dia, quando já resolvi no laptop pedidos de modificações vindos por mensagens de texto em celular enquanto passava por um engarrafamento, modificações eram bem avaliadas antes de serem pedidas porque incluíam, necessariamente, custos adicionais com estúdios, músicos, fitas e outras “inconveniências” desabilitadas pelo mundo digital.

Na realidade do mercado de trabalho de hoje, em que a maior parte do processo se passa por e-mails e uma mera reunião de equipe passou a se chamar “presencial”, a busca por uma exatidão maior no briefing é crucial, leitor: muita atenção com o que os pedidos de quem está lhe propondo o trabalho e leia os e-mails com cuidado, diferente daquelas propagandas de Viagra, remédios para calvície e softwares baratos que infestam a Internet. Criar uma pasta para e-mails relativos a cada trabalho pode ser uma boa providência para freelancers que se envolvem em vários projetos simultaneamente.

Sempre evite responder de bate pronto a uma crítica, pedido, ou observação a respeito de seu trabalho. Um espaço de 10 a 15 minutos entre a chegada do e-mail bomba (“não estamos satisfeitos com a sonoridade da trilha”, “não era isso que estávamos esperando da música”, ou coisas menos educadas) e você mandar a sua resposta pode fazer toda a diferença.

Tente lembrar ao interlocutor o que foi combinado anteriormente e, por isso mesmo, evite a qualquer custo orientações falsamente simpáticas do tipo: “faça o que você sentir que é adequado”, “quero que você fique totalmente livre para criar”, “eu não entendo nada da parte técnica da música, não sei o que te dizer”. O passo seguinte sempre é algo como: “não sou músico, por isso não sei explicar porque, mas a música não bateu”.

Pela minha experiência, o único sujeito que me deixou realmente à vontade para trabalhar, e deu tudo certo, foi o cineasta Rogério Sganzerla, que por sua inteligência e sensibilidade muito acima do comum, sabia aproveitar todas as ideias e incorporá-las às necessidades do discurso artístico que estava sendo montado.

Tenha sempre em mente, leitor, que uma de suas funções mais importantes como produtor musical é transformar em música, em produto, a ideia de quem está lhe contratando e, para isso, você terá que tentar entender o melhor possível a expectativa do cliente e adequá-la à situação musical e ao orçamento.

Dizer “não” é possível e, muitas vezes, inevitável, mas se você tiver conseguido um bom briefing, ficará mais fácil fornecer opções, manter sua credibilidade e afastar aquela impressão de que você é uma prima dona que só faz o que quer. Isso sim é que ficou para trás nos anos 80 e ninguém mais quer pagar por marra, e sim por resultados, eficiência e um pouco de bom humor.

Fernando Moura é pianista, compositor, arranjador e produtor de música e trilhas sonoras com mais de 30 anos de experiência no mercado. Saiba mais em www.myspace.com/fernandomoura.

2011-03-10T18:36:58+00:00 março 10th, 2011|Categories: colunas, Sonhos de um Produtor|Tags: , , |

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One Comment

  1. Vanderlei Loureiro (LOUREIRO) março 11, 2011 at 9:53 am - Reply

    Muito bom Fernando, vc continua o mesmo, opiniões acertadas, muito conhecimento do assunto e sempre com bom humor, um forte abraço, e muito sucesso meu velho amigo, Loureiro.

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