Qual a química perfeita para trabalhos na música?

///Qual a química perfeita para trabalhos na música?

Qual a química perfeita para trabalhos na música?

Sem sorte não é possível nem atravessar uma rua, ou, como diria Nelson Rodrigues, “o sujeito não pode nem chupar um Chicabom, que pode morrer engasgado com o palitinho do picolé”. No mundo profissional da música, isso também funciona. Todo mundo sabe que quando se toca ao vivo tem dias em que até a esbarrada de mão vira arranjo. Por outro lado, tem dia em que até aquela frase que você nunca errou, nem no ensaio, sai meio mastigada e não há muito a fazer, exceto caprichar na cara de gênio e torcer pela próxima música chegar logo até o show terminar.

Para aqueles que trabalham em vários projetos e tipos de situação musical diferentes ao mesmo tempo, além da sorte, existem outros fatores muito importantes para a satisfação geral e para aumentar as chances de ser chamado novamente. Sim, leitor, com a experiência, fui percebendo que esse é o principal objetivo do freelancer: não só resolver a parada de agora, mas deixar vontade em quem chamou para um novo encontro. Adianta pouco você perder a paciência com demandas imprevistas de um trabalho e passar a fazer tudo rangendo os dentes, ou de uma maneira fria, burocrática e distante porque está se sentindo mal na situação.

Dessa maneira, você talvez consiga manter a sua reputação de competência, mas muito provavelmente estará acrescentando a ela a tag de “difícil”, “temperamental” e “estrela”. Convenhamos, não é, leitor? Imagine uma faxineira que vai trabalhar na sua casa ficar dando bronca porque não tem a vassoura adequada, o detergente não é do tipo que ela gosta e você ainda pediu para ela receber as encomendas que comprou pela Internet e assinar um recibo de entrega. Você vai pensar bem antes de chamá-la novamente, não é mesmo?

Do outro lado da linha está o baba ovo profissional, aquele que é só elogios, sempre muito prestativo, agradável e… sem iniciativa ou competência. Só repete o que o chefe manda, só sabe fazer de uma maneira e, diante de um imprevisto, é apenas mais um a reclamar das “injustiças da vida”. Esse tipo de profissional, eventualmente, consegue manter um fluxo de trabalho porque sabemos que vivemos em uma era em que a vaidade domina e poderosos gostam muito mais de serem agradados do que contestados, mas não acredito que meus leitores tenham vocação para capachos amorfos e sem opinião.

Mais importante do que bancar o durão, ou ser “Maria-vai-com-as-outras” é procurar se sincronizar às necessidades de cada trabalho, quase como descobrir o BPM que o fluxo está pulsando: não agulhar, não mandar e-mails inúteis, longos, ou raivosos. Ler com atenção o e-mail do cliente, tentar entender e escolher um momento mais adequado para responder. Existem clientes que têm uma hora para responder e-mails (horário de almoço, fim do expediente, ou antes do expediente comercial para os que acordam cedo como eu e trabalham no Japão).

Bom humor é fundamental, mas sinta o momento adequado para aquela descontraída. Se ela vier na hora em que o outro lado está angustiado pode soar muito mal em vez de aliviar as tensões. Tente fazer com que haja e-mails simples dando conta de arquivos recebidos para que ninguém se esqueça da importância da comunicação em trabalhos pela web e evite, em situações de prazo angustiante, tratar de outros trabalhos simultaneamente. Nem sempre isso é possível, e se for inevitável, tente fazer de uma maneira que ninguém se sinta competindo pela sua atenção. No nosso meio, somos todos meio carentes e egocêntricos, com todo amor e carinho, é claro.

Tudo isso é importante e possível de ser feito, mas não é receita de bolo e só vai funcionar se houver entre você e seus parceiros de trabalho, sejam eles clientes ou fornecedores, aquela qualidade inexplicável e fundamental que alimenta relações do artista com o mundo exterior: a empatia.

Se ela acontecer naturalmente, melhor, mas não demonstre antipatia, ou conteste seus clientes e parceiros: eles vão lhe retribuir na mesma moeda estabelecendo um clima de competição pra lá de “O Aprendiz”, e você pode acabar tendo que fazer um arranjo para o Roberto Justus colocar voz… Sem falar naquele efeito sonoro horrível e altíssimo que acompanhava os desclassificados no táxi de saída da empresa para casa. Ninguém merece!

Fernando Moura é pianista, compositor, arranjador e produtor de música e trilhas sonoras com mais de 30 anos de experiência no mercado. Saiba mais em www.myspace.com/fernandomoura.

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2011-04-17T21:45:47+00:00 abril 17th, 2011|Categories: Sonhos de um Produtor|

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