Afinal, o que é mais importante para um produtor?

///Afinal, o que é mais importante para um produtor?

Afinal, o que é mais importante para um produtor?

Descobrir seu caminho na música lado a lado com Ray Charles, escrever arranjos para as orquestras de Count Basie durante anos a fio, estudar composição e arranjo com Nadia Boulanger (mestra de Stravinsky, Aaron Copland, Phillip Glass e outros do mesmo calibre) em Paris durante cinco anos, produzir um disco que vendeu mais de 110 milhões de cópias de um artista, ou passar carnavais no Rio de Janeiro hospedado na casa da ex-rainha das quentinhas, Ariadne Coelho?

Com a palavra, Quincy Jones, o mestre com carinho, o homem que assina a trilha sonora de nada menos que 33 longas metragens, que tem o maior número de premiações da história do Grammy (79 indicações e 27 premiações) e que driblou a morte em 1974, escapando de um aneurisma cerebral gravíssimo.

Após 15 anos, ele está de volta ao mundo autoral com o livro escrito em parceria com o jornalista Bill Gibson, Q on producing http://www.youtube.com/watch?v=NMFjG5rnXIk , o CD Soul Bossa Nostra (veja em http://www.youtube.com/watch?v=GJZdL732vLY), que é uma perfeita continuação da festa allstar de Q Juke Joint de 1995. Confira também a música de trabalho em http://www.youtube.com/watch?v=J1dx7C0OHj4.

Observe como os riffs de sopros light (flautas e fluegelhorns, uma marca registrada dos arranjos de Q) de discos dos anos 60 como This is how I feel about jazz e Hip Hop Bossa Nova são revisitados, remixados e recriados com a categoria de sempre: colocação, groove, bom gosto nos voicings e aquela qualidade essencial à música comercial de qualquer época, tocada em qualquer mídia: a vontade que ela provoca no ouvinte de querer ouvir mais.

O livro (foto acima) não escapa a momentos de xaropada inevitável a qualquer celebridade (“tive muita sorte em conhecer fulano”, ”trabalhar com beltrano sempre foi diversão garantida”, “sicrano é uma das pessoas mais talentosas que já vi”). Ainda assim, é um documento muito importante para ser lido por quem tem aspirações a produtor e quer entender o que afinal faz essa figura que não necessariamente toca, arranja, compõe ou canta e a cada dia que passa, parece ser o maior responsável pelo sucesso, ou fracasso, de uma empreitada musical. Nosso homem se declara contra os baba-ovos de plantão: “…when it´s right, you can feel it-it just flows. I don´t need yes-men” (pág. 67).

Afirma que a relação do produtor com o artista tem que ser “absoluta e inquestionável” (pág. 130) e que se a canção for mal escolhida, o arranjo estiver ruim, o estúdio inadequado, ou os músicos errados, sempre será culpa do produtor. Por outro lado, se, mesmo assim, a faixa se transformar em um hit, o mérito será do artista.

Claro que o clima de positividade, no qual a maior parte do tempo tudo é “amazing and fun”, tem suas baixas. Na pág. 108, fica-se sabendo que Joe Jackson, pai de Michael Jackson, se recusou a autorizar um adiantamento de mais de 30 mil dólares para a produção de Bad, mesmo depois de Thriller ter dominado o mundo pop nos anos 80.

A relação com o astro pop azedou quando ao constatar que Bad tinha vendido muito menos do que o disco anterior (“só” 30 milhões de cópias!), Michael jogou na cara de Q (pag. 127) que “ele não está atualizado com o que está acontecendo nas ruas, não sabe que o rap está morto”. O ano era 1987.

No livro, Quincy enumera argumentos realistas em sua defesa, e é ótimo para nós, que vivemos sonhos e realidades de produtor bem diferentes das desses caras, saber como lidar com esses “momentos não” do artista, em que ele se vê frustrado em suas expectativas e tenta jogar a responsabilidade no produtor.

A parte técnica, por ter atravessado gerações de inovações, modismos e crendices, também tem bons momentos no livro. Destaco os relatos de um dos mais constantes parceiros de Q, o engenheiro de gravação Bruce Swedien. Muito boa sua descrição do sistema de sincronização de máquinas de 24 canais, através de SMPTE time code. Na pág. 110, ficamos sabendo que foram usadas até 15 máquinas de 24 canais simultaneamente no que eles batizaram de “Acusonic Recording Process”. Aqui no Brasil, sincronismo através de SMPTE sempre foi olhado com certa desconfiança para sincronizar duas máquinas, somando 48 canais. Porém, no Thriller, comandavam mais de 200 tracks de áudio! Nada demais para um sistema de gravação em computador, mas uma façanha incrível no mundo analógico de 1983!

Não tenho a menor ideia se, e quando, esse livro será lançado aqui no Brasil, mas se você quiser saber mais sobre essa personalidade tão interessante e onipresente nos últimos 50 anos da música popular ocidental, acesse http://www.quincyjones.com.

Fernando Moura é pianista, compositor, arranjador e produtor de música e trilhas sonoras com mais de 30 anos de experiência no mercado. Saiba mais em www.myspace.com/fernandomoura.

2011-02-04T10:05:03+00:00 fevereiro 4th, 2011|Categories: colunas, Sonhos de um Produtor|

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