Programando som de solo em um Minimoog

///Programando som de solo em um Minimoog

Programando som de solo em um Minimoog

Acaba acontecendo, leitor: por mais que tente evitar o gosto do cantor por solos de guitarra, ou que o cliente peça para “não complicar no instrumental”, desde From the beginning, do Emerson Lake and Palmer, passando pela abertura do Arquivo X, zilhôes de gravações de pop, hip hop e até a nossa Rita Lee em Mania de Você, o solo de sintetizador com um som agudo e penetrante (calma, leitor!), derivado de uma senóide, sempre fará parte do vocabulário e dos recursos à mão de um produtor.

Quase todos os teclados que conheço apresentam em sua lista de presets alguma coisa nesse gênero e não é todo mundo que gosta, mas achei que seria interessante programar e gravar esse som no pioneiro MiniMoog para dividir com você, leitor, esse momento tão vintage e tão atual da produção musical.

No vídeo acima, até 19” toco um som “genérico” desse tipo de solo vindo de um Vírus SNOW, mas poderia ter sido to Korg Triton, Radias, ou de algum virtual de plantão, cópia de Mini Moog, ou não.

Em 22” começo a procurar o timbre começando pela seleção de oitava em um dos dois seletores disponíveis no teclado. As escolhas mais adequadas são a 8´ ou a 4´. Pode parecer crendice, mas cada posição da chave de oitava do Mini Moog tem um timbre distinto. A posição 2´, por exemplo, que também seria possível para a programação desse som, conduz para um timbre mais suave que o necessário em um contexto pop.

Fernando Moura mostra texturas no Minimoog

Logo, escolho a forma de onda (senóide) que no Mini Moog é a segunda das possíveis escolhas da esquerda para a direita.

De 32” a 36”, mudo o envelope que parecia estar com um ataque bem stacatto para uma posição mais relaxada e mais apropriada ao “assovio” associado a esse timbre de solo. Aproximadamente, o ataque em 9 horas, o decay em meio dia, o sustain em 3h da tarde e o decay a seu gosto.

De 37” a 42”, aciono o segundo oscilador em uníssono com o primeiro, o que no caso de um sintetizador analógico de 1974, mesmo tendo passado uma boa temporada nas melhores clínicas de afinação em Tóquio, quer dizer “mais o menos afinado”. Uso uma forma de onda vizinha à primeira para um colorido mais rico, embora compatível.

Em 44”, começo a testar a quantidade do filtro variando a posição do cutoff frequency, do emphasis e do amount of contour, os três botões dispostos horizontalmente que programam os filtros no Mini Moog. Nos modelos recentes de Mini Moog (Voyager e outros), eles estão dispostos na vertical e tive uma tremenda bad trip ao tentar usá-los. Imagine a camisa do Flamengo com as listras na vertical…

Em 50”, ligo um delay, porque, mesmo sendo fã dos analógicos, não sou conservador nem purista e acho um efeito essencial para solos.

De 54” a 1´10”, testo com frases do mundo real o alcance das regulagens dos filtros, mas isso é absolutamente pessoal e sempre dependerá do contexto do arranjo que você estiver produzindo.

Em 1´12”, ligo o portamento, que no Mini Moog se chama “glide”, e procuro a velocidade mais indicada para uma nota “glissar” para a outra de acordo com o fraseado que estou tocando.

A partir de 1´18”, toco usando os recursos do glide, pitch bending e modulation, arriscando alguns crescendos e diminuendos nos filtros até o final em 1´36”, para alívio de Claudia, minha fiel escudeira que filmou essa empreitada em sua novíssima câmera digital em uma posição pra lá de ridícula no “aconchego” de Bariri Estúdios.

Como escrevi no início desse artigo, esse timbre pode ser obtido em qualquer teclado, ou módulo, mesmo em um general MIDI de computador dos mais genéricos. O que muda? O prazer em tocar um instrumento tão incrível para mim como o Mini Moog e o sentimento que isso gera em cada frase que vai se sucedendo na performance.

Não se iluda, leitor: a panela mais incrível do mundo nunca cozinhou nada sozinha, nem foi capaz de decidir a quantidade de tempero para um grande chef.

Bom ano novo!

Fernando Moura é pianista, compositor, arranjador e produtor de música e trilhas sonoras com mais de 30 anos de experiência no mercado. Saiba mais em www.myspace.com/fernandomoura.

2011-01-04T22:07:40+00:00 janeiro 4th, 2011|Categories: colunas, Sonhos de um Produtor|Tags: , |

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One Comment

  1. Marcio Silveira fevereiro 23, 2011 at 11:00 am - Reply

    Parabéns, Fernando, pela explicação e pelo som!

    Ótima forma de mostrar o pouco do muito que esse tecladão pode reproduzir…

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