Casting não é só para filmes: escolhendo músicos certos

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Casting não é só para filmes: escolhendo músicos certos

Como escolher os músicos certos para um trabalho

Segundo o dicionário Aurélio, “arregimentar” é “agrupar em regimento unidades militares”, ou “fazer entrar em um grupo”. Lembra daquele par ou ímpar para escolher os times da pelada? É mais ou menos o mesmo princípio: escalação. No cinema, chama-se “casting” e, pela colocação cada vez mais detalhada nos créditos dos filmes, a gente entende logo a importância do trabalho. Na música não é diferente: seja qual for o tamanho da instrumentação, é fundamental o produtor escolher com cuidado o time do qual ele vai ser o capitão (para os que tocam além de produzir), ou técnico (se não for participar como instrumentista).

Um dos segredos para o bom funcionamento de qualquer time é a distribuição das tarefas bem definida entre os seus componentes. “Se todo mundo quiser se ouvir ao mesmo tempo, não vai dar”, dizia o maestro Ivan Paulo na passagem de som de um grupo de samba, em que todos disputavam o primeiro plano com a cantora. Outro exemplo que pode ilustrar bem esse pensamento foi um ataque do time do Flamengo que formava com Edmundo, Romário e Sávio, e nunca funcionou, mesmo com o Sávio sendo colocado de ponta esquerda para que todos coubessem no mesmo time. Foi apenas um festival de estrelismo, discussões e nada de produtivo aconteceu.

A mistura pode ser uma boa saída para um casting eficiente, mas preste bem a atenção no que é mais importante para o trabalho: se é uma gravação que exige boa leitura, não adianta chamar o “rei do groove”, ou o maior solista do bairro se ele não tiver o hábito de trabalhar com scores. No extremo oposto, já gravei com bateristas de incrível swing, mas que por não saberem ler música ficaram tão apavorados que eu tive que ficar ao lado deles fazendo mímicas, antecipando o que iria acontecer nos próximos compassos, como viradas, breques, volta da voz, solo, etc.

De maneira geral, quanto menor for o número de participantes que você precisa usar, mais entrosados eles devem ser, para adiantar o seu lado como produtor. Exemplo clássico é o trio de base com guitarra, ou teclado mais baixo e bateria. Se os caras tocam juntos há um tempo e regularmente, o groove vai aparecer com maior facilidade. Vocalistas e naipes de metais também funcionam melhor se você arregimentar pessoas que têm o hábito de trabalharem juntas, pois há questões como a respiração, entonação e ataque que não se explicam somente pelo que está escrito em uma pauta e dependem de outros fatores mais subjetivos que o entrosamento resolve melhor.

A mistura de idades e gerações musicais diferentes pode funcionar muito bem em gravações de naipes maiores como cordas e percussão. É importante você conseguir driblar com elegância o clima de workshop que poderá se instalar com os mais novos mostrando novidades em termos de arcos, palhetas ou baquetas aos mais velhos e se admirando dos incríveis instrumentos que os mais experientes possam estar usando na sua gravação. Tudo muito interessante e instrutivo, mas se o relógio do estúdio estiver rodando, cuidado, leitor, ele é incrivelmente menor do que parece!

Se ficar em dúvida sobre quem fará o primeiro, ou o segundo do naipe, deixe que os músicos resolvam entre si, a menos que você tenha escrito um solo pensando em determinado instrumentista que foi convocado para a gravação por causa de seu som. Ao conferir se o take está ok ou não, dirija-se ao mais experiente para pedidos e modificações e a todos os componentes para os elogios, quando for o caso.

Assim funciona uma arregimentação com maiores chances de sucesso: identificar a missão daquele instrumento na sua produção, escolher o instrumentista que você acha que vai resolver melhor a tarefa e ficar atento para que as chamadas subsequentes para formar o time, se complementem bem sem rivalidades, sem “donos do time” e sabendo que se todo mundo fizer a mesma coisa, certamente algo vai ficar faltando.

No Japão, palcos de shows para 10 mil pessoas são desmontados em uma hora, ou menos, por exércitos de roadies que estão especificamente instruídos para fazerem cada um uma pequena parte em sincronismo perfeito, e sem querer aparecer mais do que o colega ao lado. Por último, e não menos importante, lembre-se do pedido sábio do Quincy Jones nas sessões da gravação de We are the world: “deixe seu ego do lado de fora, por favor”.
Fernando Moura é pianista, compositor, arranjador e produtor de música e trilhas sonoras com mais de 30 anos de experiência no mercado. Saiba mais em www.myspace.com/fernandomoura.

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2011-04-06T11:38:51+00:00 abril 6th, 2011|Categories: colunas, Sonhos de um Produtor|Tags: , , |

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2 Comments

  1. Silvio Dias abril 7, 2011 at 10:25 pm - Reply

    Fernando, apesar de não ser músico profissional, gosto muito das suas colunas! Leves, porém bem informativas e com um ótimo toque de humor! Aliás, o site inteiro é muito legal! Abs a todos!

  2. Mateus abril 8, 2011 at 5:33 am - Reply

    Show!!!!

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